A rega num jardim seco

A falta de chuva das últimas semanas começa a fazer-se sentir, com alguma murchidão da folhagem, e algum amarelecimento das folhas nas novas plantações, que, pelo facto de terem o sistema radicular ainda pouco desenvolvido, não conseguem captar nutrientes suficientes devido à falta de água. O nosso jardim, recém plantado, como muitos outros jardins nesta época, não tem ainda um sistema de rega funcional, pelo que, se não chover significativamente nos próximos tempos, começará a apresentar sinais de sede e degradação.

Um jardim mediterrânico tem como um dos objectivos o de poder gozar de um aspecto saudável durante todo o ano sem ser regado. Nos primeiros anos não tínhamos sistema de rega e não regámos o jardim. Este ano, porém, optámos por instalar um sistema de rega rudimentar, a funcionar sem programação automática, portanto com utilização esporádica. As razões que nos levaram a instalar rega foram várias:

  • Os nossos solos são argilosos, e portanto bastante compactos e pesados. Muitas plantas que temos no viveiro são plantas de solos pobres, mas também leves, ou seja, de textura arenosa, que as raízes destas plantas têm facilidade em penetrar profundamente. Nos nossos solos, as raízes destas plantas mantém-se muito mais superfíciais, tornando-se muito mais cedo susceptíveis à seca, uma vez que, embora a argila permita uma muito maior retenção de água, após algumas semanas sem chuva, as camadas superficiais do solo secam.
  • Tipicamente, o clima mediterrânico tinha Verões secos, com duração variável do período seco de região para região, e Outonos, Invernos e Primaveras húmidos, com chuvas razoavelmente regulares. Nos últimos anos, porém, tem-se vindo a verificar cada vez mais um dos sinais há muito previstos do aquecimento global: fenómenos meteorológicos extremos, como chuvas intensas e concentradas ou ondas de calor, e uma grande irregularidade dos padrões meteorológicos. Os períodos secos no Outono, Inverno ou Primavera, vêm-se tornando cada vez mais frequentes. Assim não há segurança para os períodos de plantação, ou seja, há uma probabilidade considerável de o período crítico pós plantação ser seco, mesmo quando esta é feita em alturas que tradicionalmente eram seguras. Uma vez que renovamos frequentemente algumas plantas do jardim, e não dispomos de tempo para dedicarmos especial atenção a essas plantas, o sistema de rega será uma forma de contornar o problema.
  • Finalmente, o jardim frontal é o ‘rosto’ do viveiro, pelo que gostaríamos que todas as plantas se mantivessem vivas e bonitas, mesmo nos períodos críticos. Dado que a experiência dos anos anteriores não foi muito favorável com as plantas menos adaptadas aos nossos solos, decidimos montar um pequeno sistema de rega artesanal, que tentaremos utilizar o menos possível, até porque muitas plantas mediterrânicas se dão mal com a humidade excessiva nos periodos quentes.

Regar ou não o jardim, quando se tem um jardim com características mediterrânicas, é uma opção de cada um. A rega sistemática é desaconselhada, pela óbvia razão de consumir água inutilmente, mas também pelo facto de muitas plantas mediterrânicas não tolerarem o calor húmido. Além disso, a rega regular pode produzir um crescimento excessivo, e, consequentemente a necessidade de podas mais frequentes em algumas plantas.

Um jardim cujas plantas estejam estabelecidas e perfeitamente adaptadas ao solo e ao local não necessita de rega. Sendo isto uma situação ideal, principalmente quando surgem periodos secos prolongados após a plantação, como está a ser o caso este ano, é necessário optar por alguma rega, sob pena de perder a plantação, ou arriscar toda uma estação com as plantas em péssimas condições.

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